sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Livro dos Itenerários

"Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam"

José Saramago

Sem Título

Às vezes parece que começas a perder. E perdes tudo. Não é um equívoco. Perdes, perdes tudo. E quando já não há nada a perder, é preciso que tudo surja como novo. Da vontade, da força, da determinação. Da esperança, que nos faz mais humanos que qualquer outra coisa.
E tudo renasce. Descobrimos os livros de novo, não os mesmos, ou até os mesmos. O vento. A paisagem. As pancadas nas mesas voltam a doer.
As pessoas voltam.
Não é um erro, nem presunçoso, achar que somos guerreiros.
Porque no fim, quando recuperamos tudo de nós, temos a reconquista.

Jihad

«Il faut entrer en soi-même armé jusqu’aux dents.»

Paul Valéry
Monsieur Teste
Gallimard, Paris

'rêveries du promeneur solitaire'

«J’ai pensé quelquefois assez profondément; mais rarement avec plaisir, presque toujours contre mon gré et comme par force: la rêverie me délasse et m’amuse, la réflexion me fatigue et m’attriste; penser fut toujours pour moi une ocupation pénible et sans charme."

Jean-Jacques Rousseau
Rêveries du Promeneur Solitaire
Librairie Générale Française, Paris

Há metafisica bastante em não pensar em nada

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Albero Caeiro

A Vida Vivida

Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia
Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da
noite imóvel
E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?

De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra
Que se destrói à presença das fortes claridades
Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério
E cuja forma é prodigiosa treva informe?

Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino
Rio que sou em busca do mar que me apavora
Alma que sou clamando o desfalecimento
Carne que sou no âmago inútil da prece?

O que é a mulher em mim senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos abraços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?

[...]

O que sou eu senão ele, o Deus em sofrimento
o temor imperceptível na voz portentosa do vento
O bater invisível de um coração no descampado ...
que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim?

Vinicius de Moraes